Refugo, o nosso piso de caquinhos vermelhos

Meu coração paulistano transborda nostalgia. Já não mais habito lá. Parece que chegou a hora de os cacos também não mais morarem ali.

caquinhos-refugo

Lá passava tempos tomando sol quando criança, brincando de molhar a minha irmã e minha amiga do quarteirão, tempos lavando o carro, perdi a conta dos banhos que dei nos vários cachorros que por lá andavam, corriam, dormiam, que se sacudiam quando lhes dava na telha… também perdi as contas das voltas com a minha Monark e de perna de pau, feitas artesanalmente pelo meu grande pai.

Tempos das bandeirinhas que colávamos pra festa junina, fazíamos um mutirão entre a criançada: cortar, colar, e além de pintar os correios-elegantes, confeccionar as caixas.

Tempos dos beijos escondidos na garagem, das festas que fazíamos entre todos os amigos e amigos dos amigos, cada uma mais legal que a outra, enchendo bexigas, pendurando-as nas colunas, dançando, tudo com a testemunha dele, o piso de caquinho vermelho.

Agora novo morador acha coisa velha a tradição, viva a modernidade em sua essência, sem paciência, sem complacência. O piso tá bom, mas é coisa velha. Coisa de velhos. Não escorrega, mas é demodê. Feito no tempo em que as coisas duravam, aguentou mais que os próprios donos do lar…

A gente tem que aceitar o novo, né? Mas custa. Custa-me. Nem achava que era assim tão velha, como a tradição. Velha e embolorada como os próprios caquinhos. Apegada ao que já nem é meu, se é que um dia foi.

Meu coração paulistano transborda nostalgia.

 

Mais informações sobre a história do refugo no blog hometeka e cimentoeoutrascoisinhasmais.

Sobre Cristina Pacino
Nascida em São Paulo, residente em Madri. Relações Públicas por decisão. Professora de Idiomas por vocação e mestrado. Paixão por ensinar, vivo para aprender. Quero contribuir para uma sociedade com mais opiniões próprias, ideias originais e criatividade. Acredito que aprender um novo idioma é gerar oportunidades de experimentar a vida sob outras perspectivas. Fundamental: aprender, adaptar-se e mudar. Sigo as palavras de Cora Coralina: "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."

4 Responses to Refugo, o nosso piso de caquinhos vermelhos

  1. Roberto disse:

    Saudades dos queridos caquinhos vermelhos!

Pode me responder que eu gosto!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: