Gigante pela própria natureza

ou, A inocência infantil

Era uma vez uma garotinha de 7 anos nascida numa grande cidade brasileira e que amava seu pequeno mundo: sua família, sua escola, e todos seus coleguinhas que eram maioritariamente seus vizinhos.

Seu pai tinha deixado seu país natal,
a Espanha, nos anos 50, atravessando o Atlântico em busca de uma vida melhor, pois lá vivia-se uma ditadura que duraria de 1936 a 1975-77, viria ela a saber mais tarde.

Tal garotinha era muito curiosa, faladeira, gostava de ler, desenhar, pintar, cantar e falava sempre com amigos imaginários, enfim, tinha uma infância absolutamente normal.

Nessa época, nos idos de 1981, seu país ainda estava sob a ditadura, e por sorte faltariam só 4 anos para que a democracia chegasse depois de longos 20 anos. Mesmo estando no 1º ano da primária, todos os alunos tinham que cantar o hino nacional brasileiro antes de entrar em aula. Era normal, coisa diária, até considerada banal pelos estudantes.

 

Todos se punham em fila, e, como ela era a mais alta do grupinho, sempre ficava por último. Mas nunca desobedecia a regra máxima: colocar a mão no ombro do coleguinha para marcar a distância e em seguida abaixar o braço.

Para ela era um prazer cantar, e cantar o hino na verdade era um desafio; a letra é realmente difícil para qualquer pessoa. A essa altura ela já sabia a primeira parte inteira, embora não tivesse a menor ideia do que significava, ela se empenhava em cantar em voz alta, porque sabia.

Um dia qualquer daquele ato rotineiro, ela comentou com seu pai que chegara do trabalho que sabia cantar praticamente toda a letra do hino, ao que ele respondeu que ficava feliz, pois sabia que era tarefa gigante para tão pequena criatura.

Por curiosidade, ela perguntou-lhe se também tinha que cantar o hino quando ia à escola, e se ele sabia a letra. Ao que ele respondeu:

“Era obrigatório cantar o hino nacional antes de entrar na aula, quando a polícia passava, quando estava numa repartição pública e entrava algum policial ou alguém do governo. E sabe como tínhamos que fazer? Colocar a mão para o alto e cantar forte e claro. Assim:”

E mostrou o gesto que tinha que fazer:

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Duas crianças fazem a saudação diante de um cartaz de Franco, set 1939. Fonte: EFE

 

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Fonte: la Voz de Galicia

 

 

Contou mais coisas, mas o único que a garotinha reteve foi a mão levantada.

No dia seguinte, ao entrar na fila para cantar o hino na escola a menina não teve dúvidas, foi logo levantando o braço e cantando com orgulho seu hino, tal como seu pai lhe havia contado que fizera de pequeno.

Nisso, uma professora se aproxima e lhe diz que pode abaixar o braço. Ela, toda sorridente, diz que não, que prefere cantar assim, que seu pai lhe havia ensinado como se fazia no seu país de origem.

A professora volta para perto dos demais, a menina continua orgulhosa com seu braço levantado e os vê cochichando entre eles e olhando para ela. Todos olhavam para ela. Feliz da vida e presunçosa de saber cantar tão bem o hino, ela acha que os professores a estão admirando, tamanha façanha!

Um novo professor se aproxima e diz que é para ela abaixar o braço. A garota volta a explicar que havia aprendido com papai. Então ele pergunta se seu pai era italiano, visto tamanha colonização italiana em tal cidade, a pergunta era natural. Ela nega. Alemão? Nega de novo. E responde: espanhol. O professor a olha e diz: “ah, claro”. Se afasta e nisso, para alívio dos professores, já acabou a cantoria.

A coisa fica nisso mesmo, a menina nem sequer tentou levantar o braço no dia seguinte. O professor se adiantou e a chamou de lado antes do hino para dizer que aquilo não se fazia na sua escola, só na escola do seu pai.

Ela com inocência e aceitação, concordou e tudo voltou ao normal.

Tal episódio foi irrelevante para ela na época, já que era normal que os adultos a corrigissem. Por isso, nunca comentou com os pais e tudo ficou por isso mesmo.

Hoje, ela ainda sabe cantar o hino, e mora no país do seu pai.

A cara da inocência

 

Glossário:

Cochichar: dizer segredinhos, falar em voz baixa, murmurar.

Presunçoso: que ou quem mostra excessiva confiança ou orgulho exagerado em si próprio, vaidoso.

Façanha: proeza, grande feito.

Ficar por isso mesmo: no texto significa não ter desfecho diferente; pode significar algo que termina impune. O mesmo que “acabar em pizza”.

 

Sobre Cristina Pacino
Nascida em São Paulo, residente em Madri. Relações Públicas por decisão. Professora de Idiomas por vocação e mestrado. Paixão por ensinar, vivo para aprender. Quero contribuir para uma sociedade com mais opiniões próprias, ideias originais e criatividade. Acredito que aprender um novo idioma é gerar oportunidades de experimentar a vida sob outras perspectivas. Fundamental: aprender, adaptar-se e mudar. Sigo as palavras de Cora Coralina: "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."

2 Responses to Gigante pela própria natureza

  1. Alessandra disse:

    Hola Cris,
    Me encantó la historia, jaja. Tu foto también 😊
    Besos
    Ale

Pode me responder que eu gosto!

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