Relato – Como aprendi outros idiomas

Em Amsterdã, há alguns anos. Foto: Jaime Suárez

Muito além das fórmulas mágicas, considero que duas coisas são imprescindíveis para aprender um novo idioma: querer e estar motivado.

Acho que não existe uma idade certa para aprender uma língua, porém é fato que quanto mais jovem for o estudante, mais rápido, automático e talvez fácil será aprender. Faço tais afirmações com base no livro How the Brain Learns, do neurocientista David Souza. Ele pensa como eu, e defende a aprendizagem dos adultos.

Considero inclusive que umas pessoas podem ter mais dificuldades que outras, mas que aprender é questão de tempo, dedicação e vontade.

Moro na Espanha, sou brasileira e, além de português, falo espanhol e inglês. Comecei a estudar francês há pouco tempo. Portanto, por enquanto, falo 3 idiomas.

 

Espanhol

Meu pai nasceu na Espanha e foi para o Brasil nos anos 50. Tive sorte de ele ensinar espanhol a mim e a minha irmã desde que éramos pequenas. O idioma leva consigo a cultura, a forma de falar, as características do país, as festas, a comida, as músicas e um longo etc. de características do país de origem. Para mim é muito óbvio: ter contato com tudo isso é aprender o idioma, muito além de saber construir frases corretamente.

Me formei em Relações Públicas, o que me deu a oportunidade de aprender espanhol na universidade por 4 anos.

Muitos anos depois de ter terminado os estudos, decidi viajar à Espanha de férias, e confesso que me sentia muito à vontade falando espanhol com o que tinha aprendido. Todos me entendiam e eu entendia os espanhois na maioria das vezes.

Tempos mais tarde tomei a decisão de morar fora, e escolhi a Espanha. No começo era tudo relativamente fácil e só depois de umas semanas foi que percebi que falava “espanhol dos livros”, e por mais que as pessoas se esforçassem em me entender, agora estava morando aqui e tinha que falar “espanhol da vida real”. Foi um pouco frustrante perceber isso, mas fiz um grande esforço, e em 3 meses me comunicava muito bem. Suficientemente bem para me inscrever no Instituto Cervantes e fazer o DELE, o diploma de espanhol como língua estrangeira. Consegui o nível mais alto na primeira.

O que me ajudou?

  1. Estudar todos os dias. Ler, assistir TV, escrever e que meu namorado corrigisse minhas redações.
  2. Inscrever-me ao “forocervantes” e prestar atenção a todas as regras de espanhol da Espanha e dos demais países hispanoparlantes.
  3. Ser flexível e aprender o que as pessoas me ensinavam e continuam ensinando.
  4. Trabalhar com espanhois.

 

Inglês

Pertenço a uma família modesta. Minha mãe trabalhava num salão e beleza e tinha muitas clientes. Uma delas, tradutora profissional, sugeriu-lhe que matriculasse suas filhas num curso de inglês.

Minha mãe procurou alternativas, porém não podíamos “nos dar àquele luxo” na época. Estamos falando dos anos 80, quando eu tinha 11 e minha irmã 17 anos. Minha mãe então acabou aceitando a oferta irrecusável da cliente: que suas filhas tivessem aulas particulares com ela, por um preço meramente simbólico.

Embarquei numa grande descoberta, aprendendo coisas que jamais pensei que pudessem existir, não fossem as aulas do novo idioma e a boa vontade da professora. É fato que ser uma pessoa curiosa me ajudou muito a progredir.

Como aprendi?

  1. Investindo numa das minhas paixões desde criança: escutar música. Não havia internet, então comprava uma revista chamada Letras Traduzidas (atualmente têm grupo no Facebook)  que tinha letras de músicas em inglês e suas traduções. Ouvia as músicas na rádio e com a ajuda de um dicionário Michaellis de 2 volumes encontrado no lixo (pelo meu pai) fazia minhas traduções das letras a português. Depois revisava com a versão da revista.
  2. Quanto mais aprendia mais via o idioma por todos os lados, nos nomes dos filmes, das coisas, dos comércios, o que me estimulava ainda mais a querer saber.
  3. Tinha amigos na escola com os quais treinar o pouco que sabia. Isso ajuda muito quando se é criança, pois sempre há competitividade para ver quem sabe mais.
  4. Mais tarde, ao trabalhar em multinacionais, tive a ocasião de aprender muitíssimo. E meus chefes sempre contavam comigo para projetos diferentes pelo fato de eu saber mais de um idioma.

Por causa do nível que tinha fui convidada a dar aulas no condomínio onde morava. Pouco a pouco fui aprendendo a ensinar e depois de 1 ano me vi com um trabalho extra, de professora. Ensinando é que se aprende, digo por experiência própria. Dava aulas particulares depois de sair do escritório, e assim fui juntando dinheiro para vir para a Espanha.

Há uns anos fiz um curso preparatório para formar professores de inglês para adultos através da Universidade de Cambridge – CELTA , fiz o mestrado oficial de professores da União Europeia e também e estudei para prestar concurso para ser professora da Escuela Oficial de Idiomas. O concurso foi cancelado então acabei não me apresentando. Hoje, graças a meus conhecimentos nesse nível desses idiomas, dou aulas online de português e inglês a alunos de diferentes países, como Suíça, Israel, Brasil, Estados Unidos e Espanha.

 

Francês

Para falar a verdade jamais pensei em aprender francês…não achei que pudesse ter nenhuma utilidade para mim.

Quando fiz o mestrado para ser professora soube que muitos filósofos-pedagogos que eu admirava eram suíços francófonos ou franceses. Essa foi a luz que fez eu me interessar pelo francês. Outro fator de peso é que 80% dos meus alunos falam francês, e estão constantemente comparando os idiomas. 2 verões na França foram suficientes para que eu entendesse algo do que diziam em contexto, outra motivação a mais para me matricular no francês.

Vale destacar que tenho 40 anos, e muita vontade de aprender. Não tenho nenhuma obrigação de estudar, e assim sem saber muito me parece um idioma dificílimo.

O que estou fazendo para aprender?

  1. De novo, minha paixão: a música. Utilizo os recursos que temos atualmente, podcasts (o programa Le Soul Club) e internet (grupos no Facebook, rádios em francês do iTunes).
  2. Tenho aula 2 vezes por semana, mas estudo outras 2, aos sábados e domingos. Não, não é um sacrifício, é só uma horinha por dia. Senão, pra que perder tempo indo às aulas?
  3. Presto muita atenção para evitar fazer traduções, e assim entender a mecânica do idioma. Este processo chamo de aprender a aprender.

 

Conclusão

Sempre trabalhei em empresas multinacionais, e saber um idioma a mais me abriu muitas portas, inclusive uma que outra promoção, já que entre algumas tarefas tinha que fazer traduções e negociar com pessoas de outros países.

Da mesma forma que usar o computador, saber idiomas é condição básica para trabalhar em qualquer empresa hoje em dia, neste mundo globalizado, no qual, pelo menos inglês, faz parte de nossa rotina e de nossa vida online.

Um dos objetivos do QECR, Quadro Europeu de Referência (da Comissão Europeia) é que os cidadãos da UE possam aprender pelo menos 2 idiomas além do materno. A importância de saber outros idiomas é condição para integrar-se num mundo plural e multicultural, respeitando e entendendo as diferenças culturais.

Quando olho para trás e lembro de ter chegado a pensar “para que aprender um idioma se não vai ter utilidade nenhuma?” reconheço que foi um pensamento um pouco limitado da minha parte. Considero que aprender uma língua nova abre portas, permite ver o mundo sob outra perspectiva. Abre caminhos, abre mentes, dá espaço a novas amizades, conhecimento, experiências.

Convido a todos a aprenderem um novo idioma. Mas isso sim, aquele que realmente tiver vontade.

 

P.S. – versão brasileira do texto feito em espanhol a convite da querida Júnea, do Idiomas Sin Fronteras.

Sobre Cristina Pacino
Nascida em São Paulo, residente em Madri. Relações Públicas por decisão. Professora de Idiomas por vocação e mestrado. Paixão por ensinar, vivo para aprender. Quero contribuir para uma sociedade com mais opiniões próprias, ideias originais e criatividade. Acredito que aprender um novo idioma é gerar oportunidades de experimentar a vida sob outras perspectivas. Fundamental: aprender, adaptar-se e mudar. Sigo as palavras de Cora Coralina: "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."

6 Responses to Relato – Como aprendi outros idiomas

  1. Vânia disse:

    Amei conhecer um pouquinho mais sobre você Cris. Também considero importante aprender a aprender. Parabéns pelo empenho e entusiasmo constante. Beijos

  2. Elena disse:

    Ótimo, relato! Adorei as dicas para melhorar na aprendizagem de uma nova lingua. Eu descobri, graças a você, os podcasts do Café Brasil e vou tentar praticar a escuta e a escrita ao mesmo tempo, transcrevendo, como se fosse um ditado, alguns podcasts. Escolhi Serendipidade, um bom jeito para prestar atenção na escrita das palavras e nos acentos em português.

  3. Sai da Crise disse:

    Adorei seu post. Muito obrigado, motivador

Pode me responder que eu gosto!

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