Hipster: criar sim, imitar não

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Hipster = palavra usada para descrever um grupo de pessoas com estilo próprio e que habitualmente inventa moda, determinando novas tendências do panorama alternativo.

Os hipsters são caracterizados por resgatar ideias do passado para descontextualizá-las, reinterpretá-las e aplicá-las às tendências atuais; neste sentido, são os amantes do estilo vintage e de dar um novo uso às coisas antigas. Paradoxalmente, apesar desta nostalgia do passado que os caracteriza, são pessoas apaixonadas pela tecnologia em todas as suas manifestações: equipamentos (iPhones, iPods, Mac, etc.) e atividade na internet, especialmente nas redes sociais (blogs, Twitter, Facebook, Instagram, etc.).

Seus perfis profissionais são relacionados ao campo das artes, da literatura e da tecnologia, profissões nas que supostamente possam canalizar sua “criatividade intelectual”, tais como fotografia, música, comunicação e humanas em geral (opinião da autora: pode-se canalizar a criatividade em qualquer área). Como curiosidade, podemos constatar que a bebida hipster é o café.

O hipsterismo é um fenômeno mundial que não deixa ninguém indiferente. Mais visíveis do que nunca no cenário urbano, tudo o que os hipsters falam é cool. O propósito é ser diferente, seja na roupa,  modo de agir ou comprar. A contracultura é a palavra por excelência dessa tribo.

De onde vem esse termo

Derivado de “hip”, o termo é usado desde a década de 1940 com o significado de descolado ou inovador, designando os jovens brancos e ricos que imitavam o estilo dos músicos negros de jazz dos quais eram seguidores.

Jack Kerouac, escritor norte-americano polêmico, descreveu os hipsters dos anos 40 como pessoas “subindo e vagabundeando pela América, vadiando e pegando carona em toda a parte, como elementos de uma espiritualidade especial.” Vale lembrar que Kerouac foi um dos criadores do termo “beat”, ou geração beat. A título informativo, o nome dos Beatles vem daí.

O que representa

Uma fusão entre todos os fluxos anteriormente dominantes de contracultura. Agora, “uma mutante e transatlântica mistura racial e assimilação cultural (melting pot em inglês), gostos e comportamentos

Como assim?

Traduzindo: são normalmente pessoas entre 18 e 45 anos, socialmente ativas – estudam, trabalham – que pensam e agem diferente da média geral. Autênticos, não estão nem aí para o que a sociedade impõe, e consideram que “está na moda não estar na moda.” O legal é ser desigual.

Pertencem a um contexto social subcultural da classe média urbana.

Vamos ao detalhe:

Estilo de vida

  • Sustentável sempre que possível.
  • Reciclável desde roupa até o clássico “vidro, embalagens e papel”.
  • Plantar ervas aromáticas em casa e ter uma mini horta.
  • Criatividade – dar novo uso a velhos objetos.
  • Ser diferente.

Casa

  • Responsável com o meio ambiente.
  • Serviços básicos fornecidos por cooperativas, de preferência. Fata de simpatia pelos monopólios em energia elétrica, água e gás.
  • Prioridade pela compra de alimentos locais, mesmo sendo mais caros que os produzidos em grande escala.
  • Objetos usados, herdados ou roubados da avó (mesmo que já estiver fora de moda).

Música

  • Feita por gente com os mesmos gostos.
  • Que cante sentimentos, e se for com bom humor, melhor.
  • Que cante coisas do dia a dia, às vezes as letras são meio nonsense.

Imagem pessoal

  • Visual eclético, misturando roupas novas com recicladas, ecológicas e vintage ou retro.
  • Óculos de armação grande, dando um ar de intelectual.
  • Uso de alguma peça que não combine com o estilo, comprada num brechó.
  • Comer e beber em lugares que tenham algo de fusion ou fusão, por exemplo restaurante asiático-mexicano.
  • Camisetas com mensagens de sentido duplo ou engraçadas. Calças justas. Tênis coloridos.
  • Cabelo “cuidadosamente desarrumado”, e um visual de ar pin-up modernizado.

Comportamento

  • Faça você mesmo, “do it yourself”  ou DIY. Esse era o lema do movimento punk.
  • Resgate das tradições: meninas sabem tricotar e fazer crochê. Meninos fazem e consertam coisas com as próprias mãos em vez de contratar algum especialista –desde seus skates até pintar a casa.

Como identificar um hipster a olho nu?

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Sabe aquela garota do seu prédio que usa uns coques estranhíssimos, até que bonitinhos, e que usa aqueles óculos que mais parecem da sua tia? E aquele rapaz barbudo que você achou que era do partido comunista, e nem segue política? Aquela moça que vai no metrô fazendo uma touca de crochê no caminho ao trabalho? Aquele cara que vai pra cima e pra baixo com sua bicicleta fixie azul turquesa?

Não posso afirmar 100%, afinal julgar pela aparência é perigoso, mas eles são fortes candidatos a serem hipsters.

Como em todo movimento, há opiniões contra e a favor. Vejamos algumas delas:

CONTRA

Já afirmava Douglas Haddow no artigo Hipster: O Beco Sem Saída da Civilização Ocidental de uma revista Adbusters de 2008 que “os hipsters não trouxeram nada de novo para a sociedade atual e se alimentam somente de referências culturais do passado”.

“Uma dotação artificial de diferentes estilos de diferentes épocas, o hipster representa o fim da civilização ocidental – uma cultura perdida na superficialidade do seu passado e incapaz de criar qualquer novo significado. Não só é insustentável, é suicida. Enquanto movimentos juvenis anteriores desafiaram a disfunção e decadência dos mais velhos, hoje temos o hipster – uma subcultura jovem que espelha a superficialidade condenada da sociedade tradicional ou mainstream.”

Há quem diga que existe uma delicada linha que separa o hipster do brega, e do cafona. O que os outros vão dizer ou pensar não é exatamente o que preocupa um hipster.

Os hipsters representam padrões de compra diversos, por isso vão morar em bairros antes marginalizados, disparando os preços dos imóveis, inflacionando a vizinhança. As lojinhas ao redor são “superlegais”, com um precinho um pouco salgado, mas justifica porque o artigo é diferente. Isso acontece em Madri, Berlim, São Paulo, Barcelona.

A FAVOR

A moda atual revive constantemente o passado em seu design, comportamento, conceitos… mas o faz de uma maneira moderna e chique e poucas vezes tomamos consciência disso. Portanto, seria razoável acreditar em um “hipsterismo fashion”, onde passado e presente se unem, onde a filosofia de vida do grupo urbano e o complexo mundo da moda se transformam em um só.

É inegável que trata-se de uma experiência estilística interessantíssima, já que faz uso das possibilidades que oferece a moda atual, onde elementos de épocas passadas são cada vez mais reinterpretados e atualizados.

O lema não é atualizar-se ou morrer? Os hipsters o levam ao pé da letra.

Opinião

Vendo o lado contraproducente dessa realidade, uma pessoa que viaja a outro país para conhecer uma nova cultura, conhecer lugares e experimentar comidas acaba encontrando lugares transados e bacanas, que são iguais aos das suas cidades, já que ser diferente é o normal. A originalidade acaba se perdendo na tentativa de ser divergente.

O aspecto cafona pode pôr a pessoa em situações delicadas, mas como pensa-se que um hipster quer ser excêntrico e não liga para a opinião alheia, talvez não seja um problema.

Entretanto me parece natural que depois de tantos movimentos – hippie, punk, grunge – essas pessoas que curtiram diferentes estilos nas suas épocas busquem um espaço nesta miscelânea de ideias, conceitos, comportamentos. Assim explica-se como aquela camiseta daquele show de vinte anos atrás esteja na moda.

Considero normal essa fusão de estilos por representar uma evolução natural de uma sociedade onde qualquer pessoa que tiver internet pode se comunicar entre oceanos em tempo real, onde mandamos twitts sobre o assunto que mais nos interessa, onde o cidadão se informa sobre o que lhe interessa. Indo além da comunicação: compra-se globalmente, consome-se igualmente.

O ser humano necessita reinventar-se e a autenticidade é algo latente, queremos criar, ser originais. O fato de reciclar objetos dá asas à imaginação e à inovação.

Colocar um pouco de humor no dia a dia, vestir-se diferente, sair da mesmice, compartilhar ideias, gostos, música… Por que não?

Será que cada um de nós não tem algo de hipster na nossa maneira de viver?

Glossário:

Vintage: palavra inglesa, significa ano de boa colheita vinícola. Diz-se de produto antigo mas de excelente qualidade. Na moda, refere-se a uma recuperação de estilos dos anos 20, 30, 40, 50 e 60.

Hipsterismo: a maneira de viver característica dos hipsters

Descolado: pessoa desenrolada, de bom papo, que tem comportamento sociável.

Contracultura: conjunto de manifestações que marca uma revolta contra as atividades ideológicas e artísticas dominantes.

Não estar nem aí: se diz quando não se dá importância a algo ou alguém, não “dar bola”, não levar determinada opinião em consideração.

Nonsense: (palavra inglesa) aquilo que é contrário à razão ou ao bom senso. Absurdo.

A olho nu: sem lentes de contato ou óculos. Para qualquer um ver.

Coque: penteado feminino, que consiste em enrolar os cabelos no alto da cabeça a fim de tê-lo arrumado ou por adorno.

Touca: cobertura tênue de cabeça, geralmente usada no frio.

Crochê: malha feita com uma agulha de bico terminado em gancho.

Brega: de qualidade inferior. Reles, ordinário, antoquado, fora de moda. Que não tem maneiras refiandas.

Cafona: ridículo, kitsch, que revela falta de requinte, e de bom gosto. Que ou quem é simplório ou provinciano. Quadrado, careta, mal vestido, de ideias e comportamentos ultrapassados, conservador, atrasado.

Ao pé da letra: dar o sentido exato, preciso, literal. O mesmo que literalmente. É uma expressão idiomática usada para fazer referência à interpretação fiel do que foi dito ou lido.

Transado: gíria, feito com esmero, capricho; bem-feito; elaborado. Diferente, jeitoso e moderno. Contrário de banal, comum.

Bacana: palavra com inúmeros significados positivos, que se aplicam a pessoas (agradável, bom, bonito, bem-educado, bem-apessoado, correto, honesto, simpático) e a coisas (bom, bonito, legal, divertido); legal, maneiro, bárbaro. Também significa pessoa rica, grã-fina.

Ligar: neste caso significa levar em consideração, dar importância a, interessar-se por.

Curtir: aproveitar, desfrutar, apreciar, gozar, gostar muito de.

Por favor, identifiquem-se quando deixarem comentários. Não sei quem são os anônimos, a menos que me digam.

Atualização: Comentário à parte, Carmen do Lananarama está produzindo, e muito, em crochê. Vale muito à pena conferir seu trabalho, fruto da criatividade e horas com a agulha na mão.

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Sobre Cristina Pacino
Nascida em São Paulo, residente em Madri. Relações Públicas por decisão. Professora de Idiomas por vocação e mestrado. Paixão por ensinar, vivo para aprender. Quero contribuir para uma sociedade com mais opiniões próprias, ideias originais e criatividade. Acredito que aprender um novo idioma é gerar oportunidades de experimentar a vida sob outras perspectivas. Fundamental: aprender, adaptar-se e mudar. Sigo as palavras de Cora Coralina: "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."

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