Com a faca e o queijo nas mãos

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Que as crianças aprendem idiomas mais rápido do que os adultos é um fato. A neuroeducação explica. Então por que os adultos aprendem melhor?

Há uns dias saiu uma reportagem de uma professora no The Telegraph que reforça o que defendo: adultos têm a faca e o queijo nas mãos já que podem aprender idiomas com muita facilidade, e bem, porque têm recursos naturais intrínsecos, que não se tem quando se é jovem.

Antes de definir tais recursos, vale lembrar o que uma das minhas fontes de inspiração Noam Chomsky diz, a distinção entre o conhecimento que a pessoa tem das regras de um idioma e o verdadeiro uso daquela língua em situações reais. O primeiro é conhecido como competência, e o segundo, performance ou desempenho.

A essência da proposta de Chomsky baseia-se em descobrir as realidades mentais individuais fundamentadas na maneira como as pessoas usam a linguagem. Estudando a linguagem humana é possível mostrar como uma pessoa constrói o sistema de conhecimento a partir de sua experiência diária, e assim tende a solucionar problemas. Por isso, aqui vão alguns recursos que temos a nosso favor:

1. Ter algum conhecimento prévio ajuda a fazer associações e descobrir padrões mentais para aprender. Um adulto tem mais vivências que uma criança, logo, tem mais recursos aprendidos e maior entendimento conceptual para poder assimilar um novo idioma. Desta maneira, adultos têm mais habilidade em deduzir e aplicar novas regras de idiomas.

2. Adultos podem reaprender a aprender um novo idioma. Plasticidade neural, neuronal ou neuroplasticidade é a última palavra no ensino de idiomas. Descobriu-se que nosso cérebro vai mudando com o tempo e é capaz de adaptar o aprendizado com as necessidades do adulto. Mas atenção: o cérebro só trabalha com estímulos. Somos responsáveis por mandar informações para que ele funcione.

3. Desenvolve a criatividade. Porque permite diferentes maneiras de aprender ao sair do lugar comum. Em vez de limitar-se a absorver, os adultos questionam os métodos, o conteúdo, os tempos e o material usado para as aulas.

4. Adultos e crianças são avaliados de forma diferente. Crianças não utilizam as mesmas estratégias para explicar-se sobre temas complexos e serem considerados fluentes. Espera-se que os adultos tenham fluência rapidamente, o que gera expectativas e algumas vezes inibição dos alunos ao se comunicarem. Adultos tendem a ficar embaraçados mais facilmente que crianças, por estarem sendo medidos e a ideia de “o que vão pensar de mim”.

5. Pronúncia. Outra prova de que crianças aprendem mais facilmente é a sua capacidade para adaptar-se à pronúncia correta. Os adultos têm mais dificuldades para aperfeiçoarem a pronúncia de uma língua estrangeira, porque se comparam aos colegas e aos pequenos que o fazem com naturalidade. É importante falar corretamente, porém não obcecar-se com uma só habilidade entre tantas – a pronúncia – ajudará o aluno a desenvolver o aprendizado e gostar de aprender.

6. Aprender o idioma que se quer é gratificante. Seja qual for a motivação, normalmente o adulto aprende idiomas porque quer. Isto acontece com 95% dos casos de meus alunos de português. Quando a pessoa tem o estímulo intrínseco, o sucesso no aprendizado é garantido. A identificação com a cultura do idioma, a história, os acontecimentos recentes sempre são razão para aprender.

7. Desafio. Comparo com ir à academia: no começo é uma luta inútil, não se vê o resultado, parece uma tremenda perda de tempo. Ao cabo de umas semanas começam os avanços e o adulto percebe que aprende, entende e tem mais motivação para continuar as aulas. Ultrapassar essa barreira do início é importantíssimo.

8. Aprender sem perceber. As crianças aprendem um segundo idioma sem dar-se conta. Absorvem o idioma, muitas vezes o adquirem e o reproduzem com naturalidade, enquanto a mente adulta tem outro tipo de flexibilidade e aprende diferente. Por isso recomenda-se tempo de dedicação, seja repassando, ouvindo, lendo, escrevendo ou falando o novo idioma. Há centenas de recursos na Internet e fora dela para facilitar o aprendizado.

É importante aproveitar todas essas ferramentas a seu favor para aprimorar o novo idioma. As crianças ainda descobrirão toda essa fortaleza, enquanto isso desfrutam da doçura própria da idade.

Acredito que com um pouco de empenho e força de vontade podemos conectar esses circuitos em nosso cérebro e dar asas à imaginação com a quantidade de recursos que temos à nossa disposição. E você, o que acha?

Glossário

Ter/estar com a faca e o queijo na mão: ter todas as ferramentas e oportunidades para ser bem sucedido em algo.

Sair: ser publicado, pode ser em qualquer mídia.

Reportagem: palavra de gênero feminino.

Competência: destreza. Não confundir com concorrência.

Essência: ideia principal.

Basear/basear-se: estar fundamentado, estabelecer as bases de.

Padrão: modelo, o que serve de referência.

Fluente: natural, espontâneo, que tem fluência no falar.

Embaraçar: provocar nervosismo, preocupação ou desconforto em alguém.

Aperfeiçoar: tornar perfeito. Note que no texto está no infinitivo pessoal.

Garantido: afiançado, certo, seguro, confiável.

Na Internet: em português a internet tem gênero, e é feminino.

Aproveitar: tornar proveitoso, utilizar.

Sobre Cristina Pacino
Nascida em São Paulo, residente em Madri. Relações Públicas por decisão. Professora de Idiomas por vocação e mestrado. Paixão por ensinar, vivo para aprender. Quero contribuir para uma sociedade com mais opiniões próprias, ideias originais e criatividade. Acredito que aprender um novo idioma é gerar oportunidades de experimentar a vida sob outras perspectivas. Fundamental: aprender, adaptar-se e mudar. Sigo as palavras de Cora Coralina: "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."

One Response to Com a faca e o queijo nas mãos

  1. Pingback: Nelson Mandela e a aprendizagem de idiomas | Aqui se fala português

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