Breve relato – Caminho de Santiago Português Central

Este é um repost adaptado da publicação que fiz com a Camila no BLPM.

Durante as férias pós-quarentena e depois do falecimento da nossa queridíssima peregrina Suzana Paquete, a Camis (do blog Con Su Lado de Cá) e eu (Cris Pacino e Aqui se Fala Português) resolvemos tirar da gaveta a ideia de fazer o Caminho de Santiago juntas.

Para os que acompanharam as redes sociais do BLPM nos dias em que estávamos viajando já sabem de alguns detalhes dessa peregrinação e enviaram muitas mensagens de apoio e carinho, mas também muitas perguntas sobre o Caminho e a viagem em si, em plena pandemia.

Neste texto vamos tirar algumas das dúvidas suas, leitor, e comentar o que significa o Caminho de Santiago, segundo a nossa experiência.

O Caminho de Santiago

Muita gente já ouviu falar sobre o Caminho de Santiago, outros não… normal, como tudo na vida! Alguns pensam que o Caminho foi feito por Santiago, e os peregrinos estão seguindo os passos do Apóstolo. Mas não é isso! O Caminho de Santiago é, na verdade, VÁRIOS CAMINHOS que levam a Santiago de Compostela. E Santiago de Compostela, por sua vez, é uma cidade incrível da Galícia, onde estão supostamente os restos mortais do Apóstolo Santiago, dentro de onde hoje é  a Catedral de Santiago.

Durante todos os anos, milhares de pessoas vão fazer a peregrinação no Caminho de Santiago, sendo o mais famoso de todos o Caminho Francês, que começa em Saint Jean Pied de Port e são 800 km até Santiago de Compostela.

Neste site (Gronze), em espanhol, se pode aprender sobre os diferentes Caminhos, as opções de rotas, albergues, dicas etc. Além de poder ler muito sobre o místico Caminho no blog da nossa querida Suzana Paquete – That Good Trip.

Algumas pessoas fazem o Caminho por motivos religiosos, outras por esporte, outras por curiosidade, outras por turismo, outras porque estão buscando algo… Mas a verdade é que muitas pessoas que fazem o Caminho querem repetir a experiência! E foi o que aconteceu tanto com a Camis quanto comigo.

A Camila já fez o Caminho de Fisterra, os últimos 100 km do Caminho Francês. Eu fiz o Caminho Francês saindo de Burgos. E ambas fizemos algumas etapas do Caminho de Madrid juntas, e em julho o Caminho Português Central.

O Caminho de Santiago Português Central

Esta rota do Caminho é a segunda mais famosa, depois do Caminho Francês. Começa em Lisboa e são mais de 600 km até chegar a Santiago de Compostela. Dentro do Caminho Português existem as vertentes do Caminho Português da Costa, que começa no Porto, e a Variante Espiritual, que tem uma etapa de barco.

O começo do Caminho, emoção na fronteira da Espanha com Portugal.

Devido ao pouco tempo disponível, para não sair da Espanha e para evitar problemas devido à pandemia, decidimos começar o Caminho em Tui (quase 120 km para chegar a Santiago de Compostela), e dividir as etapas em cinco dias:

  • Tui – Redondela
  • Redondela – Pontevedra
  • Pontevedra – Caldas de Reis
  • Caldas de Reis – Padrón
  • Padrón – Santiago de Compostela

Qual equipamento é necessário pra fazer o Caminho de Santiago?

Existem vários sites, textos e vídeos falando sobre o equipamento mais indicado para fazer uma rota longa de caminhada. Não existe o equipamento certo ou errado. O peregrino precisa estar confortável com o calçado, seja um tênis de corrida que é mais leve e suave com os pés… mas pode molhar, ou uma bota de trekking, que confere melhor suporte aos pés, porém pesa e pode dar umas bolhas… Importante mesmo é levar um calçado que já foi usado e não seja apertado!

Logo a mochila é um item essencial – que não seja muito grande, nem muito pesada, e impermeável de preferência.

Os bastões de caminhada não são essenciais, porém ajudam muito na hora das subidas e descidas. Mas também é algo que precisa de algo de treino para utilizar com conforto. Aprende-se rapidinho a usar.

Roupa de secagem rápida, chapéu e filtro solar! E muita força de vontade.

Não indicamos que alguém gaste rios de dinheiro pra fazer o Caminho uma única vez. Melhor é usar o que já se tem disponível em casa, e ir construindo o equipamento de caminhada conforme esse hábito for se multiplicando, seja pelos próximos Caminhos ou mesmo alguma rota perto de casa.

https://www.instagram.com/p/CDRX6QvJ4w4/?utm_source=ig_web_copy_link

O que levamos na mochila?

Uma regra de ouro dos peregrinos e caminhantes é: carregar uma mochila com, no máximo, 10% do seu peso ideal. Ou seja, se seu peso ideal for 70 kg, melhor levar até 7 kg nas costas.

E realmente, não vale a pena carregar muita coisa no Caminho. O objetivo é viver esses dias de peregrinação com o mínimo possível.

Lista do que levamos:

  • 3 camisetas
  • 1 calça
  • 1 bermuda
  • 1 jaqueta impermeável
  • 3 calcinhas
  • 3 pares de meia de diferentes modelos
  • 1 pijama
  • 1 chinelo
  • 1 sapato extra (sandália ou tênis)
  • itens de necessaire: potinhos de shampoo, condicionador, hidratante, filtro solar, sabonete, sabão para lavar roupa
  • farmacinha: band-aid, esparadrapo, remédio para estômago, dor de cabeça, e para picadas de mosquito
  • creme para dores musculares
  • carteira minimalista com cartão, documento de identificação e um pouco de dinheiro
  • credencial do peregrino
  • fone de ouvido, carregador do celular e mais um carregador portátil

E diariamente levamos água, ao redor de 1 L (que pesa 1 kg!) e algo para mastigar no meio do Caminho.

Onde ficamos hospedadas?

Para evitar problemas de última hora, e também evitar ter muita gente no mesmo quarto, fizemos todas as reservas com antecedência, seja via Booking.com ou diretamente com os locais escolhidos.

Depois de verificar as distâncias no Gronze, cada local foi escolhido para não andar mais do que 25-26 km por dia. Esses foram os locais mais dentro do orçamento, e que pareciam ser bem limpos e organizados.

Muitas pessoas nos pediram detalhes dos quartos, dos preços, do café da manhã, etc. Era muito difícil documentar tudo isso enquanto o nosso objetivo era realmente aproveitar o Caminho e os seus sinais. Em cada link vocês poderão ver fotos e detalhes de cada local.

No Caminho a gente cruza linha do trem, atravessa estrada, às vezes até pega barco. Várias são as formas de se locomover.

No geral, nosso gasto com acomodação foi de, em média, 20€ por pessoa, por noite. Alguns locais tinham café disponível ou nos deixavam a cozinha para preparar. Alguns outros tinham máquina de lavar roupa… cada local com o seu encanto.

Os peregrinos são sempre muito bem tratados e respeitados! O hotéis são mais “impessoais” no trato, e quando não se pode abrir a janela, acabamos ficando com menos opção para secar as roupas do dia anterior e tentar não estar no ar-condicionado enquanto lá fora fazia um ventinho fresco tão bom!

Os hospedeiros  das pensões e hostels se interessam por saber mais sobre os peregrinos e o motivo que cada um tem para estar no Caminho. Nessa fase de Covid, alguns nos pediram para limpar muito bem os pés e as mãos antes de entrar, mantiveram as distâncias de segurança, tentaram entregar-nos as chaves sem muito contato… e tivemos sempre a alegria de encontrar pessoas boas e interessadas em manter o seu estabelecimento limpo e seguro para o nosso merecido descanso.

Como funciona a dinâmica do Caminho?

Alguns pensam que os peregrinos saem caminhando cedo e não param até o anoitecer… ou acabam dormindo na rua ou em barracas. A dinâmica do Caminho de Santiago não é bem assim!

Primeiramente cada um escolhe a distância que quer fazer naquele Caminho ou etapa… sejam os 800 km, os 600 km… ou os úlimos 100! Depende também do tempo disponível de cada um. Alguns passam o mês inteiro caminhando, outros decidem fazer uma semana de caminhada, ou até mesmo um dia!

Cada pessoa ou grupo sabe dos seus limites, e não deve ultrapassá-los, já que podem ser muitos dias de caminhada e o seu corpo é o seu “veículo” de locomoção.

Devidamente protegidas esperando a hora da missa do peregrino, na escadinha da entrada da Catedral de Santiago de Compostela.

Falando sobre o nosso Caminho: fizemos, em média 22 km por dia, durante 5 dias. Saíamos relativamente cedo, ao redor das 7h30-8h00 da manhã e parávamos para descansar e esticar o corpo a cada 7 km. Detalhe… cada caminho é sinalizado com totens dizendo quantos kms ainda faltam pra chegar a Santiago, além das setas amarelas que sinalizam a direção que devemos seguir.

Sempre tem uma parada para ser feita, principalmente nos Caminhos mais populares – um café, um lanchinho, um local pra descansar e tirar a mochila das costas, e muitas vezes para bater papo com outros peregrinso ou até com os moradores locais. E obviamente, para carimbar o nosso Passaporte/Credencial do Peregrino.

Esta credencial atesta que o peregrino esteve caminhando e passando por distintas localidades, para depois poder retirar a sua Compostela na Oficina de Atenção ao Peregrino, já em Santiago. Para ter direito à Compostela, o peregrino tem que completar mínimo 100 km do Caminho até Santiago.

Tem muita gente que sai bem cedo pra chegar com tempo na próxima cidade e poder ficar nos Albergues Municipais – que são mais econômicos, com vários quartos de grupos de pessoas. Porém estes albergues vão enchendo e tomando espaço por ordem de chegada. Não é possível fazer reserva. Logo estão os albergues particulares, hostals, pensões e hotéis (em alguns casos). Algumas cidades são tão pequenas que as opções são mais escassas ou muito mais caras. Por isso fizemos as reservas.

Como dissemos antes, foi uma opção nossa. É perfeitamente possível sair às 7 da manhã e chegar entre 13h e 14h nos albergues para conseguir lugar.

No geral, chegávamos ao destino às 15h30, depois de 2 ou 3 paradinhas. Íamos diretamente ao ponto de pernoite, aproveitávamos para tomar uma merecida ducha, lavar as roupas e sairmos para um passeio nos pueblos e para buscar algo para comer. Um lanche da tarde ou um jantar mais caprichado era melhor do que um almoço pesado no meio da tarde.

Em seguida o objetivo era buscar água pro dia seguinte, dormir bem, e recomeçar o Caminho na manhã seguinte.

Dica extra da Cris: é melhor evitar tomar banho de manhã para que a pele dos pés não fique muito suave, e assim evitar bolhas, que são dolorosas e desnecessárias!

O que o Caminho significa pra você?

Este texto foi um apanhado do nosso Caminho Português Central e algumas dicas para quem está pensando em fazer o Caminho de Santiago, seja que rota for. Obviamente nossas dicas são mais práticas, porém, queremos deixar aqui um pouco do que o Caminho significa para cada uma!

Camila: “O Caminho é algo que eu nunca pensei que fosse gostar, ou até mesmo viciar… mas sempre que eu termino uma rota, já estou planejando a próxima. O Caminho é uma maneira maravilhosa de me conectar com a Espanha, conhecer pessoas que se dedicam a ele, conhecer lugares que eu nunca passaria de carro… Conectar também comigo mesma, passar tempo dentro da minha cabeça, meditando, enquanto faço um esforço físico para concluir aquela etapa. O Caminho começa quando decidimos fazê-lo, quando saímos de casa com a mochila preparada, quando estamos em Santiago. E na verdade, o Caminho nunca termina! Nós estamos constantemente recebendo as mensagens do Caminho, seja uma flecha amarela, seja uma concha, seja um peregrino, um buen camino, um gatinho cruzando a estrada, a vaca, a ovelha, o hospedeiro… tudo está lá para te mostrar algo – só temos que estar abertos para ouvir e seguir o que e como é preciso. Eu já estou com saudades do Caminho e não vejo a hora de fazer outra etapa, ou repetir alguma para ver de novo as preciosidades que encontrei nesses quase 300 km de caminhada desses últimos 3 anos de peregrinação. Convido vocês a se juntarem comigo, sempre… e como boa virginiana, organizo tudinho!!”

A Catedral de Santiago de Compostela impressiona. As caras são de satisfação, felicidade e alegria de ter feito esses 5 dias juntas.

Cris: “O Caminho existe para mim desde que li o famoso Diário de um Mago, do Paulo Coelho, nos idos de 88, em plena adolescência. Fiz o primeiro Caminho 20 anos depois e foi uma experiência que me fez entender um pouco do que sou, foi realmente uma viagem para dentro de mim. Foi bonita, chata, dolorida, enriquecedora e me fez descobrir belezas e imperfeições que eu nem imaginava que existiam. Tanto dentro como fora de mim. Cada pessoa que a gente conhece no Caminho é um mensageiro que traz uma comunicação especial, e cada um de nós pode ou não estar aberto a essas mensagens. Cada um tem seu tempo. Neste último Caminho me pareceu que foi tudo muito rápido, e só ao terminar entendi que foi um exemplo do que sempre digo, que ‘a vida está acontecendo agora’. Desta vez aprendi que a meta é o Caminho, e que ele começa mesmo depois de Santiago. Obviamente que quero fazer mais vezes, e pode ser só ou acompanhada. Todas as experiências são bonitas e valem à pena. Uma vez peregrino, sempre peregrino. Li esta frase no primeiro Caminho, e ela me acompanha: ‘Peregrino é todo aquele que tem um espírito livre, uma bagagem leve, uma alma solidária… e segue espontaneamente o caminho dos seus sonhos.’ ¡Buen Camino, peregrinos!

Sobre Cristina Pacino
Nascida em São Paulo, residente em Madri. Relações Públicas por decisão. Professora de Idiomas por vocação e mestrado. Paixão por ensinar, vivo para aprender. Quero contribuir para uma sociedade com mais opiniões próprias, ideias originais e criatividade. Acredito que aprender um novo idioma é gerar oportunidades de experimentar a vida sob outras perspectivas. Fundamental: aprender, adaptar-se e mudar. Sigo as palavras de Cora Coralina: "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."

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