O que é ser MÚSICO

Pense num músico que diz que sua arte “tem a força de trazer uma das maiores bênçãos atribuídas a nós seres humanos: luz ao espírito, beneficiando artista e espectador.” E também que a “música é um grande elemento de transformação do ser e social”. Acontece o mesmo no universo da educação, que nada mais é do que o compromisso da transformação do ser e social. Atrever-se a fazer qualquer apresentação é ser simples demais. Com vocês, o convidado especial da sessão “O que é ser…”, o grande Edimundo Santos!

Gravação do vídeo da canção “Jornada” (Edimundo Santos) Estúdio Odé, Madrid. Foto: Javier HZ.

Conte em breves linhas a quem não conhece, o que é ser músico.

 

Há uma anedota que diz que o músico trabalha onde os demais se divertem. Sendo um trabalho, também não deixa de ser um ato de diversão o ofício do músico. Aliás, por experiência própria, ressalto estar além, tratando-se de uma realização pessoal, um completo estado de graça.

Isso se evidencia, como é sabido, pelo simples fato no qual o músico, como o artista em geral, trabalha tendo a emoção como energia propulsora.

Ser músico, no meu conceito pessoal, é posicionar-se na atmosfera de um estilo de vida, como observador, absorver e, a partir da sua leitura, traduzir em palavras, ou notas musicais o mundo que gravita à sua volta.

É amar o que faz. Ser forte diante das barreiras sociais e econômicas, é alimentar-se de alento diante do desprezo, do cansaço, do desânimo, enfim, dos que não valorizam o nosso ofício. É manter um estado de humor e bem-estar independente do recinto no qual atua, um teatro, uma grande sala de espetáculo, um bar ou numa sala de estar de uma residência animando uma festa de comemoração de aniversário. É saber que a música, assim como toda expressão artística, é um grande elemento de transformação do ser e social por conseguinte.

Não me canso de repetir a frase na qual eu digo que ser músico não foi uma opção pessoal e sim uma ação involuntária proporcionada pela envolvente paixão desprendida pela música ao meu ser; e por isso mesmo sou eternamente grato a ela por tê-la como profissão.

Jornada (Edimundo Santos)
Vídeo de divulgação do novo trabalho “Enquanto posso” (Mientras puedo)
Com Letícia Malvares e Carlos Makuso

 

Como e quando você começou a sua profissão? 

 

Eu resumo a minha vida como alguém que sempre esteve envolto num mundo composto por experiências musicais. O que quero dizer com isso é que desde criança, dentro da minha memória de menino na casa dos 6 anos, meu mundo se resumia a música que ouvia na rádio e sons produzido pela natureza, tendo em vista minha o fato de morar no campo até aos meus 13 anos.

Meu primeiro grupo musical foi formado com mais dois amigos, em 1982, logo que deixei o serviço militar e ingressei no serviço público como funcionário na prefeitura de Diadema. O grupo chamava-se “Opus III” Onofre Alcubillas no violão e voz, Deco Quintino, no piano e eu no violão e voz. Chegamos a inaugurar o teatro Clara Nunes, de Diadema, e um teatro da Cultura de São Paulo. O grupo se desfez. Fui estudar música, e em 1984 ingressei no Coral do Estado de São Paulo, o que enfatizou ainda mais o meu sonho de ser um cantor lírico. Passei a fazer parte do Movimento Poético Nacional, cujas sessões semanais se realizavam no teatro da Vila Maria, onde, além de poetas e compositores, também atuavam cantores líricos. O universo erudito sempre me chamou a atenção, desde menino, de chegar ao ponto de chorar ao ouvir uma cantata de Bach como fundo de uma propaganda de um famoso medicamento.

Depois vieram os festivais, os quais me distanciaram do proposto de seguir carreira no cenário da música erudita. Porém, o amor pela interpretação me levou a estudar canto na Fap-Arte, em São Paulo. No período de 1984 a 1989 me vi envolvido no centro de uma grande atividade musical, atuando em festivais de música por vários Estados do Brasil, shows com o pianista Tato Fischer, fiz as primeiras serenatas como membro do grupo paulista, “Trovadores Urbanos”. Cantei no Coral Madrigal Veredas, regido pelo maestro Abel Rocha, com quem atuamos no Teatro Municipal de São Paulo na Opereta “ A Barca de Veneza” de Adriani Banchieri. Final de 1988 fui convidado pelo produtor, crítico e jornalista Zuza Homem de Melo, para a realização de um projeto musical com produção sua. O projeto ficou suspenso à espera do rumo que tomaria a economia do país perante a inesperada mudança na política com a eleição de Collor de Melo.

Em 1990 me saiu o convite, juntamente com o cantor e pianista Claudio Goldman, com quem atuava naquele momento, para cantar no cassino Estoril, Portugal. Desde então não voltei a residir no Brasil.

Show do grupo Uirapuru Urbano no Palacio de la Prensa, Novo Cine, por ocasião da projeção do filme de Elis Regina. Foto: Javier HZ.

Como é vista a sua profissão no Brasil? E fora dele?

 

Meu pai foi um opositor ferrenho em relação a minha decisão de ser artista. Segundo sua ideologia ser músico não é sinônimo de profissão, pelo menos no sentido de uma carreira com estrutura para manter uma família. Acredito que este seu posicionamento vai de encontro ao pensamento do grosso da sociedade brasileira. O que, na verdade, não se distancia muito da realidade, posto que para viver de música no Brasil, em geral, faz-se preciso obter “sucesso” perante a mídia, ou então ser um músico de formação erudita e trabalhar em uma orquestra, ser professor. Ou, ainda, trabalhar nas diversas áreas relacionadas com a música como por exemplo, regência, arranjador e trabalhos ligados à produção musical, técnico de estúdio.

Acredito ser mais fácil viver de música fora do Brasil. Conta-se o fato de haver mais respeito ao profissional da área, isso se amplia no campo dos benefícios socais. Respeito ao direito do autor no caso dos compositores e intérpretes. Sou filiado a SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) cujo funcionamento é de caráter exemplar, a GDA (direitos conexos) também portuguesa. SGAE, a qual não pronuncio os mesmos adjetivos dispensados aos portugueses e, também, a ABRAMUS, para direitos autorais no Brasil.

Festival de Música Brasileira de Granada. Foto: produção.

 

O que você recomenda aos que estão começando no setor?

 

Como menciono supra, tudo depende da trilha pela qual o candidato pretende seguir. No que toca a minha área, cantor/compositor, ou cantautor, posso garantir tratar-se de um imenso desafio, sobretudo para quem está na qualidade de imigrante. O primeiro obstáculo, talvez um dos mais difíceis de ultrapassar, é o fator idioma, ou seja, cantar em português para um público espanhol ou de outra nacionalidade. No caso do intérprete, cantar em português pode ser uma faca de dois gumes, beneficiar-se do fator diferença, mas também estar sujeito aos limites do gueto.

Neste sentido dedicar-se a um instrumento é enquadrar-se em um espaço calcado num leque mais amplo de possibilidades.

Aos que estão começando, independentemente do espaço geográfico, o primeiro questionamento é definir o caminho que pretende seguir na música, depois vem a prática do instrumento e, entre outras dicas, saber, ou ter um mínimo de noção, de manejo do trabalho na área digital. Àquilo que antes era trabalho executado pelos profissionais ligados às gravadoras, hoje cabe ao artista fazê-lo.

Por último é ter consciência do preço que pagamos por exercer uma profissão ligada ao mundo do entretenimento. Entender que nem sempre vem o reconhecimento pelo tempo de dedicação e amor dispensados pelo artista ao seu ofício. Mas, que também tem a força de trazer uma das maiores bênçãos atribuídas a nós seres humanos: Luz ao espírito, beneficiando artista e espectador.

Foi com você (Edimundo Santos/Gerson Ney França)
Com a bailarina Alicia Rosado, esposa de Edimundo, e o pianista Juan Barrios
Vídeo de Jorge González

Bate-bola

 

O melhor da profissão:

Poder divagar navegando nas infinitas águas da criação. Um beber no nunca saciar-se do mergulhar na fonte da inspiração. Poder viajar, levar nossa arte para pessoas de culturas diferentes. Viver incondicionalmente o prazer de ser músico e amar o que faz. Acredito não ser possível fazer arte sem ser movido pelo sentimento de amor para com ela.

 

E o pior:

As incertezas econômicas, a falta de respeito que, às vezes, nos é conferida por parte de contratante ou assistência, incompreensão referente ao nosso trabalho por falta de conhecimento do quão trabalhamos para se ter um repertório elaborado, ou simplesmente por não valorizar o esforço do antes e depois de uma atuação. A impressão que fica é só a do momento do espetáculo. Ter de ouvir das pessoas a famosa indagação: O que você faz? Sou músico! Sim, mas vive do que? Enfim, a dualidade natural de tudo que constitui o nosso universo compreendido.

 

Um gênio na matéria / fonte de inspiração:

São vários. Talvez a relação não caiba no espaço desta folha. Porém, citarei alguns porque um só não me é possível. A saber: Chico Buarque, Elis Regina, Gilberto Gil, Beatles, Luiz Gonzaga, Joao Gilberto, Joao Bosco, Djavan etc. Ufa

 

O que sua profissão não é:

Passa tempo, como pensam alguns. Não é um ofício fácil, exige tempo e dedicação.

Naquela Janela (Edimundo Santos/Zé Edu)
Com a bailarina Alicia Rosado 
Vídeo de Jorge González

 

Uma virtude para exercer a sua profissão:

O poder de interação que a música proporciona entre as pessoas, independente de nacionalidade, religião ou cultura. Entre os diversos fatos curiosos ocorridos comigo pelos países em que atuei, cito um que, de fato, me marcou imensamente. Em 2015 fui atuar em Istanbul por ocasião do aniversário de Diego Rivas, jogador do Fenerbahçe. O motorista responsável pelo meu deslocamento era um senhor muito simpático de religião muçulmana. Ao dizer-lhe que não comia carne vermelha, apenas peixe, o senhor muito gentilmente me levou a um restaurante cuja especialidade gastronômica calcava-se nos pratos do gênero do meu gosto. Ao lado, uma banca de peixe pertencente ao proprietário do restaurante, o cliente escolhia o peixe que ia comer no momento. Ao saber pelo chofer que eu era um músico brasileiro o dono do local, mostrando um semblante evidenciando explicita alegria, pediu-lhe, em turco que dissesse a mim sua intenção de tirar foto ao meu lado.

Tiramos foto no interior e fora do restaurante, e para completar a sessão de poses, o senhor levou-me até a banca de peixes pedindo para o chofer eternizar nossa posição diante dos bichinhos mortos, sem notarem no meu olhar uma estranha sensação de peixe fora d’água por ter aquela banca como fundo de cenário e não entender patavina do que falavam. Após almoçarmos ele me levou a uma pequena fábrica de bonés pertencente a sua família, onde trabalhavam, pai, tio, irmão, sobrinho, ou seja, um negócio familiar. Fabricavam bonés de couro, de boa qualidade, diga-se de passagem. Ao chegarmos ele me apresentou a cada um dos que estavam no recinto.

Enquanto ele me mostrava os diversos tipos de bonés com ilustrações evidenciando as cidades mais populares do país, o pai preparava um chá característico da região. De repente estávamos todos reunidos ao pé de uma pequena mesa de madeira bebendo o chá preparado pelo patriarca do clã. As perguntas feitas a mim eram dirigidas ao chofer, pelos vistos, o único a falar inglês. No final o pai solicitou que eu escolhesse alguns bonés, com diferentes temas, para levar como presente da família. Senti-me um pouco constrangido em fazê-lo, mas, a recusa, talvez, constituísse uma desfeita no conceito da cultura religiosa deles. Por isso aceitei a oferta de bom grado. Acredito que o fato de eu ser amigo de um ídolo do futebol do país tenha dado mais ênfase na curiosidade a eles conferida.

E me sentia como um personagem dentro de uma cena cinematográfica.

A delicia e a dor, como bem disse o poeta, fazem parte do mesmo pacote. Permito-me dizer, no meu caso pessoal, o delicioso ganha em contraste ao oposto. Mas me completam, qual ao que rege a própria existência neste plano. Dentro do equilíbrio é, com certeza, o que me faz viver a relativa felicidade.

 

Para fechar te deixo um texto que fiz falando do meu ídolo, Chico Buarque!

 

Eu ouvia Chico Buarque com a pressa de quem não queria ver a canção chegando ao fim. Com alma, coração, cérebro, pele, olhos e ouvidos atentos, para não perder uma palavra, melodia, acorde e a condução dos arranjos. Eu o ouvia como quem descobre um mundo desconhecido de frases poéticas e sons musicais. Ouvia tanto que temia um risco no disco, nomeadamente na parte em que ele dizia: “Teus seios inda estão nas minhas mãos, me explica com que cara eu vou sair? “Eu entrava na imagem da imaginação procurando visualizar, dentro da metáfora, ele levando os seios da amada nas mãos, na pele, nos olhos, como eu levava sua música .Eu saboreava as canções do Chico como quem se lambuza do mel nunca provado; como quem, sem saber, se embriaga na luz oculta nos olhos da futura amada. Eu degustava Chico num tempo sem tempo, como quem “perde a noção da hora”, livre, preso no agora, jogando fora tudo o que antes era. Perdidamente me encontrava adentrado na minha desconcentração do espaço à minha volta.

Dentro da canção eu detestava o compositor, porque eu o adorava.
Não o “adorando pelo avesso” porque eram seus versos que me arrepiavam a pele. Eu o odiava com o coração da certeza de quem na fonte daquela inspiração jamais beberia sequer um átomo de uma gota.

Eu detestava o Chico pelas composições que nunca faria… amava-o nas canções que sempre cantaria.

Noites Salieri nas manhãs Mozartianas.

 

Quer saber mais do trabalho do Edimundo? Confira seu site, curta a página no Facebook, Twitter e Instagram

Casa de Jorge (Edimundo Santos)
Vídeo de divulgação do novo trabalho “Enquanto posso” (Mientras puedo) 

 

Glossário:

Ser uma faca de dois gumes: gume é lado do fio dos objetos cortantes, a lâmina, então faca de dois gumes é uma faca que corta pelos dois lados.

Leque: o primeiro significado que aparece no dicionário é de objeto semicircular, feito de material leve, para ser agitado e produzir uma corrente de ar, que se fecha pela sobreposição das varetas ou de lâminas móveis. Já no contexto aqui descrito significa conjunto de coisas diversas, geralmente interligadas. Vem do topônimo Lieu Khieu, um arquipélago chinês.

Istanbul: Estambul em português

Chofer: o mesmo que motorista. palavra que vem do francês chauffeur

Entender patavina: não entender absolutamente nada. Patavina = nada

Pelos vistos: o mesmo que pelo visto, ao que parece, pelo que se vê, ao que tudo indica, aparentemente.

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Sobre Cristina Pacino
Nascida em São Paulo, residente em Madri. Relações Públicas por decisão. Professora de Idiomas por vocação e mestrado. Paixão por ensinar, vivo para aprender. Quero contribuir para uma sociedade com mais opiniões próprias, ideias originais e criatividade. Acredito que aprender um novo idioma é gerar oportunidades de experimentar a vida sob outras perspectivas. Fundamental: aprender, adaptar-se e mudar. Sigo as palavras de Cora Coralina: "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."

4 Responses to O que é ser MÚSICO

  1. Sueli says:

    Sem palavras! Demais! Parabéns aos dois pelo trabalho de cada um, meus amigos lindos!!!! Beijos
    Obrigada por esse prazer que tive agora com essa leitura !!!!

  2. Bia Ribeiro says:

    “Poder divagar navegando nas infinitas águas da criação.” Como é lindo viver sua paixão!

Pode me responder que eu gosto!

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