8 de março?

Todas as fotos foram copiadas do calendário do site sylasilverio.com, calendário lindamente desenvolvido por Silmara Rocha e Sylara Silvério. Disponível gratuitamente no site citado.

Nunca pensei em escrever sobre o dia da mulher. Por isso nunca escrevi. Corrijo: por isso nunca tinha escrito.

Me pergunto o que temos que comemorar nesse dia 8 de março. E encontro muitas, muitas coisas:

Temos que comemorar que atualmente podemos ir trabalhar sem pedir permissão aos nossos maridos, que podemos votar, e que podemos estudar. Temos que comemorar que podemos escolher a lavanderia onde vamos levar o nosso terninho, ou o carro que queremos comprar, ou até a cor do esmalte que queremos passar. Podemos escolher até o banco no qual queremos deixar o nosso dinheiro. Comemoramos até que podemos ter uma conta-corrente no nosso nome. Só no nosso.

Aí penso de novo e vejo que um dia fomos proibidas de trabalhar normalmente em troca de salário, fora de casa, já que nunca fomos proibidas de desempenhar as nossas tarefas domésticas, que tão bem fazemos, como ninguém, talvez como nossas mães ou avós… que quando saíamos da casa de nossos pais era para constituir família com outro homem, ao qual serviríamos e juraríamos obediência, como se de um animal amestrado estivéssemos a falar.

Pensando mais ainda lembro que a mulher vota há menos de 100 anos. E vejo manchetes nos jornais “a conquista do voto feminino“. Nossa, que bom que as mulheres conquistaram o direito de votar! Conquistar o voto… me parece algo como conquistar o Everest… Mas por que razão as mulheres não podiam votar antes? Deixo a pergunta.

Sem falar nos “favores” sexuais aos quais eram e muitas continuam sendo forçadas a fazer.

E quantas mulheres são humilhadas, maltratadas, violentadas, violadas, mortas por causa dos seus “parceiros”? Por que isso ainda acontece?

Quanto ainda temos arraigado em nós conceitos de que mulher pode isso, não pode aquilo… ? Quanto? Quantas vezes alguma mulher já disse que o marido ajuda em casa? E que ele nunca cozinha, ou nunca consegue pôr ordem na casa… ou até coisas do tipo “fazer para agradá-lo”? Quantas? E quanto ainda está no nosso discurso? Ai, desculpe, eu que sou uma jovem senhora de 43 anos, talvez antiquada para os leitores que nunca tenham visto ou passado por isso. Eu sim passei. Eu sim venho de uma sociedade onde a mulher ficava em segundo plano. E não estou falando de país. Estou falando do mundo mesmo.

Eu sim já me preocupei com que roupa vou sair, porque não posso ir provocando pela vida… O que vão dizer nunca foi discurso, mas sim se trombo com algum tarado pela rua. E já ouvi, aqui na Espanha, que a mulher ou usa saia ou usa decote. Mas os 2 juntos, nunca. E ouvi de UMA companheirA. E grande amiga, 10 anos mais jovem que eu.

Acho que o que está acontecendo agora não é moda. As denúncias no cinema, o #metoo pedindo a atenção do mundo aos abusos de homens loucos, o caso do #meuprimeiroassedio há uns anos no Brasil, quando houve uma mobilização gigantesca da sociedade brasileira contra os comentários de um cara no twitter… a greve convocada na Espanha… penso que tudo isso tem um componente de mudança social.

 

E quantas vezes ouvi, pra mim e pra companheiras, que isso é TPM, que você está louca, esse lance do mansplaining… ai, isso tudo é moda? é coisa que as revistas inventam pra ter do que falar? Respondo com uma pergunta: alguma mulher lendo isto já teve que ficar quieta porque tinha um homem falando mais alto do que você? Então, não estamos falando de moda.

Há uns anos ando achando que vários homens entre 40 e 55 andam meio perdidos com essa “onda” feminista. De que as mulheres têm vontade própria, que podem mostrar sua força e serem líderes, ou não… e continuarem cuidando da casa e dos filhos, se desdobrando para fazerem tudo e ainda “terem que” dar a volta por cima para serem boas em tudo. Ou para mostrarem que são boas em tudo. Essa exigência que a sociedade impõe é dura, é cruel, cara.

E a decisão de querer ou não ter filhos? Isso é tão recente!

E enquanto isso estiver na pauta do dia, das mulheres maravilhas que salvam vidas, haverá luta, haverá passeatas, haverá greves, manifestações, artigos, reuniões…

Porque cada vez mais as mulheres se dão conta do poder que têm de revolucionar a sociedade, com inteligência, com dedicação, com estudos, e não pelo fato de serem mulheres. Mas pelo fato de serem humanas. De sermos humanas.

Não gosto da palavra empoderamento, me parece um pouco forte. O que eu gosto é de sororidade. A irmandade, o companheirismo, a cumplicidade que existe entre nós mulheres, que descobrimos que unidas vamos longe. Unidas, ajudando umas às outras, crescendo juntas, e multiplicando, em vez de dividindo.

Nossa, este post poderia ser infinito. Mas aqui fico, deixando a mensagem de que ainda temos muito o que trabalhar para desfazer essa imagem de bruxas perversas, ou de coitadinhas, que as mulheres arrastaram ao longo de séculos. E tem gente que sim e tem gente que não, entretando deixo também a carícia emocional pra cada companheira que um dia teve que se explicar, ou “passou vergonha”, ou se sentiu mal por qualquer um dos temas citados.

Tudo de bom pra todos, que nos entendamos e sejamos felizes em sociedade, seres humanos! Não só no dia 8 de março. Mas o ano inteiro.

 

Glossário

Amestrado: ensinado, doutrinado, instruído, adestrado. (Diz-se não das pessoas, mas também dos animais como ensino especial.)

Feminismo: doutrina e movimento social que pede para a mulher o reconhecimento de umas capacidades e uns direitos que tradicionalmente foram reservados para os homens.

 

Calendário feminista disponível gratuitamente neste site: https://sylarasilverio.46graus.com/calendario/

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Sobre Cristina Pacino
Nascida em São Paulo, residente em Madri. Relações Públicas por decisão. Professora de Idiomas por vocação e mestrado. Paixão por ensinar, vivo para aprender. Quero contribuir para uma sociedade com mais opiniões próprias, ideias originais e criatividade. Acredito que aprender um novo idioma é gerar oportunidades de experimentar a vida sob outras perspectivas. Fundamental: aprender, adaptar-se e mudar. Sigo as palavras de Cora Coralina: "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."

7 Responses to 8 de março?

  1. natashamoura says:

    Maravilhoso Cris!!! Parabéns!!!

  2. Olá Cristina!! Parabéns pelo texto! A estrada que temos que percorrer ainda é tão longa, mas acredito que a mudanças ocorrerão mais rápido hoje, com as mulheres se unindo e usando os meios de comunicação sem medo. Seu texto faz parte deste movimento

    • Oi Bia,
      Muito obrigada! Que gostoso receber um comentario tão simpático e positivo. Sim senhora, continuemos, porque a palavra problema sugere que é “algo a ser solucionado”. Vamos em frente! Solucionando e comunicando! Um abração e força! Adorei seu blog e o jeito que você escreve!

  3. Maria Oliveira says:

    Bravo, Cris! Valeu cada palavra de espera. Rsrs
    Quando crescer, quero escrever igual a você.
    Beijão,
    Maria

Pode me responder que eu gosto!

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