O Rei do Blues

No fim de semana passado o B.B. King foi internado por problemas de saúde. Há vinte anos ele desenvolveu diabete tipo II, e sua internação foi por problemas renais e de desidratação. Na terça saiu uma breve nota de imprensa, na qual ele agradece a todos pela preocupação e votos de melhoras e disse também que se encontrava muito melhor.

Neste vídeo se vê a Gibson edição especial de 80 anos do músico, que toca ao princípio com Eric Clapton, Robert Cray e Jimmie Vaughan.

Contexto histórico

A cultura predominante do sul dos EUA tem suas origens através de colonos britânicos a partir do século XVII.

Depois de 1700, grandes grupos de escravos africanos foram trabalhar nas grandes plantações que dominaram a agricultura de exportação, cultivando tabaco, arroz e o anil (uma das origens do nome blues para o sentimento e estilo de música). O algodão foi predominante a partir de 1800, o que fez com que a escravidão fosse “parte integrante da economia do sul” a partir de então. Mesmo depois da Guerra Civil e da abolição da escravatura, o Mississipi continuava sendo um grande produtor.

Os trabalhadores das lavouras cantavam blues enquanto trabalhavam, um sentimento que se transformou em música, se misturou com o gospel e com o passar do tempo nos presenteou com o rock and roll.

BBKing cotton_farming_family

família numa plantação de algodão

 

Inícios

B.B. King nasceu Riley B. King em 1925, no Mississipi, EUA, numa fazenda de algodão pertencente a um povoado chamado Berclair.

Aos 5 anos a família foi abandonada pelo pai, a mãe se casou com outro homem e ele foi criado pela avó em Kilmichael, a 1h de distância de onde morava. Cresceu cantando gospel na igreja e aos 12 anos teve sua primeira guitarra.

Em 1943, aos 18 anos começou a dirigir tratores, numa terra tão próspera como era a do Mississipi e as famosas plantações de algodão do início do século XX.

 

B.B. King e o blues

O blues como conhecemos começou a fazer sucesso nos anos 20, e nos anos 30 era a música por excelência de identidade da cultura afro americana. B.B. King se inseriu nesse contexto desde moleque, e teve a sorte de fazer parte dos inícios do estilo, conhecido como acústico.

O registro do músico é único e inconfundível, e suas influências são diversas: gospel, chicago blues, texas blues, rock, jazz, country, swing.

A primeira oportunidade de sua carreira surgiu em 1948, quando atuou no programa de rádio de Sonny Boy Williamson, na estação KWEM, de Memphis. Seguiram-se atuações fixas no Grill da Sixteenth Avenue e mais tarde um spot publicitário de 10 minutos na estação de rádio WDIA, ganhando fama e os primeiros patrocínios.

Ele precisava de um nome artístico e foi apelidado de Beale Blues Boy, já que foi DJ na Beale Street Blues, uma rua importantíssima para o desenvolvimento da música nos Estados Unidos. O nome virou Blues Boy King, e logo para B.B. King. Seu nome e o seu apelido foram uma grande coincidência que deu certo.

 

Beale Street Blues, Memphis, anos 50

 

O uso da guitarra elétrica depois dos anos 50 foi um ponto culminante na carreira de B.B., unido ao estilo chicago blues que misturou com o rock e com instrumentos de sopro usados no jazz, como saxofone, trompete e trombone; sua técnica virtuosa, sua voz e criatividade, junto com sua simpatia, diplomacia e humildade o consagraram como o rei do blues.

Foi a partir dessa época que evoluiu de tocar em pequenos cafés, teatros de gueto, salões de dança, clubes de jazz e de rock, até grandes hotéis e recintos para concertos sinfónicos, e nos mais prestigiados recintos nacionais e internacionais

Seu estilo foi fonte de inspiração para muitos músicos como Mike Bloomfield, Albert Collins, Buddy Guy, Freddie King, Jimi Hendrix, Otis Rush, Johnny Winter, Albert King, Eric Clapton, George Harrison e Jeff Beck.

B.B. King começou a gravar nos anos 40, e até 2008 gravou 69 discos. É sem dúvida a referência do blues do século XX, bem como para qualquer músico que está começando a tocar guitarra. São mais de 60 anos de história contada através da arte musical.

 

Show feito na prisão de Sing Sing, em Nova Iorque, onde tinha havido uma revolta importante uns dias antes.

 

Lucille

Lucille é o nome da suas guitarras. Gibson é sua marca patrocinadora desde os anos 80.

Muitos podem pensar que é o nome de um grande amor do guitarrista, mas a estória é outra.

B.B. King deu nome à sua guitarra depois de um incidente em 1949, em Twist, Arkansas, onde, durante uma briga, dois homens derrubaram um fogão de querosene, incendiando o lugar onde estava tocando. Correndo para fora para escapar das chamas, o músico deixou o que tinha para trás, e vendo o incêndio, quis recuperar sua guitarra. Ele voltou e a resgatou, mas a peripécia quase lhe custou a vida. Soube que a briga tinha sido por causa de uma mulher chamada Lucille. Assim, ele pôs o mesmo nome na guitarra, como um lembrete para não fazer nada tão estúpido como brigar por uma mulher ou colocar um prédio em chamas novamente.

BBKing Guitar

“Quando canto, toco mentalmente; no mesmo instante que paro de cantar oralmente, começo a cantar tocando a Lucille.” B.B. sobre Lucille.

 

Curiosidades

  • Vegetariano e não bebe álcool.
  • Piloto de avião desde 1963.
  • Ao retornar da Segunda Guerra, foi DJ em Memphis, conhecido então como “The Beale Street Blues Boy”. Daí, B.B. King.
  • É diabético há 20 anos e participa em ações diversas na luta contra a doença.
  • Ganhou 15 Grammys, é um dos músicos mais premiados e reconhecidos de todos os tempos.
  • Seu cantor favorito é Frank Sinatra, quem ele diz ter aberto portas aos cantores negros.
  • Em 1980 entrou para o Blues Hall of Fame.
  • Em 1987 entrou para o Rock and Roll Hall of fame.
  • Em 2004 ganhou o Polar Music Prize, em reconhecimento aos seus alcances excepcionais na criação e desenvolvimento da música.
  • Em 2006 fez uma turnê de despedida, embora continuasse tocando ativamente desde então.
  • Em 64 anos de profissão tocou em 15 mil shows.
  • Lançou mais de 50 discos, e o último, “One Kind Favour”, aos 83 anos.
  • Em 1969 fez a abertura de 18 concertos dos Rolling Stones.
  • Casou-se 2 vezes, e ambos casamentos não deram certo pela demanda de 250 shows ao ano, cifra que foi diminuindo até 2006, quando fazia apenas 100 shows anuais.
  • Tem 15 filhos reconhecidos, e 50 netos.
  • Em 2011 entrou para a lista dos 100 maiores guitarristas de todos os tempos da revista Rolling Stone.

 

Show de 1974 no Zaire, atual República do Congo. Recomendo a leitura do texto abaixo do vídeo original.

 

B.B. King tocou no Brasil diversas vezes, sendo uma delas grátis no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

bb king 93

Entrada de um dos shows – 1993, Via Funchal, em SP

 

bb king 94

Entrada do show, onde se paresentou depois da Etta James no Velódromo da USP, em 1994.

 

Em abril do ano passado B.B. King demorou 40 minutos para começar a tocar numa apresentação no Peabody St. Louis. Segundo contam, ele não se lembrava das músicas, e começou a conversar com o público, brincar e contar estórias, como é típico dele.

Aos 88 anos, e com um histórico de 15 mil shows, o fato é que ele tem que descansar um pouco. Entretanto, a lenda do blues quer continuar.

Atualização: o Rei do Blues nos deixou ontem, dia 14 de maio de 2015. Que descanse em paz.

Sobre Cristina Pacino
Nascida em São Paulo, residente em Madri. Relações Públicas por decisão. Professora de Idiomas por vocação e mestrado. Paixão por ensinar, vivo para aprender. Quero contribuir para uma sociedade com mais opiniões próprias, ideias originais e criatividade. Acredito que aprender um novo idioma é gerar oportunidades de experimentar a vida sob outras perspectivas. Fundamental: aprender, adaptar-se e mudar. Sigo as palavras de Cora Coralina: "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."

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